Jogo a Jogo

Vitor Encarnação

Tudo o que é agora presente será lá mais à frente saudade

E por isso irei registar através de palavras algumas situações marcantes - pelo menos para mim - durante e após os jogos. O conjunto de textos será, se assim o entendermos, publicado em livro no final do nosso campeonato.
Aqui vão dois excertos de cada uma das "crónicas" dos dois primeiros jogos.

Um abraço para todos. 
Vítor Encarnação

1. APRESENTAÇÃO
Os adeptos não eram muitos. A nossa sorte foi a tourada ser à mesma hora. Na bancada escutou-se o seguinte comentário: - Estás a ver, a segunda distrital não passa disto. Olha ali, o nosso vai passar pelo do Ourique que nem um tiro.
Digo agora eu, que o tiro tinha para aí uns dezoito anos e tinha-se deitado cedo. O do Ourique praticamente o triplo da idade e tinha acabado de chegar da feira medieval de Alvalade do Sado."


2. ARZILA TEM MAIS ENCANTO
" Éramos muitos e possivelmente o fotógrafo queria que o castelo também aparecesse. Começou a gerar-se alguma impaciência. Falta de rolo não seria. Quanto muito seria falta de pilha ou a memória cheia. Quando o entusiasmo de captarmos aquele momento para todo o sempre já ia dando lugar a alguma desilusão, descobrimos que afinal o que o moço tinha nas mãos era uma playstation."

3. EL DIA DEL LOBO

"El lobo coloca a bola na marca dos 11 metros. Hoje tem de ser. Hoje tem de matar os fantasmas que o assolam há já 734 dias. Recua devagar. Um, dois, três passos atrás. Inspira fundo. Nem o Quim Barreiros que se ouve na aparelhagem do casamento ali ao lado o desconcentra.
El lobo fixa o olhar do guarda-redes. Este tenta fugir ao contacto visual, mas agora já é demasiado tarde. Os olhos do marcador da penalidade são dois feitiços, uma teia que prende as pupilas e os movimentos do portero
Enquanto o Quim Barreiros mete o carro na garagem da vizinha, El lobo mete a bola na baliza apertadinha. Hipnotizado, o guarda-redes nem pestanejou e só despertou novamente para a realidade com os festejos ensurdecedores do estádio. "   

4. " AS PALAS DAS BOTAS" 
 
"Desde o tempo da pala do antigo Estádio de Alvalade que uma outra não dava tanto que falar. Emprestadas pelo Carrilho, não se sabe se por simpatia se por judiaria, as botas tinham umas orelhas descomunais, de um tamanho tal que tomara muitos perdigueiros.
Sentado no banco dos suplentes, o Labacha tentou, de todas as maneiras e feitios, amansar aqueles dois capachos que teimavam arrebitar até à meia canela."   


5. MÁ Q’JÊTO

“No final do jantar, vendidas as rifas e bebidos os digestivos, é tempo de dar uma palavra de agradecimento à equipa que nos veio visitar. Para que o defesa direito do Monte Gordo não vá aborrecido, incentivo o Chris a resolver ali publicamente eventuais ressentimentos. É claro que o Chris com aquele jeito de ter os batimentos cardíacos dentro da boca, logo afiançou que estava tudo resolvido. E para confirmar isso mesmo, chama o homem do lábio rebentado e pede-lhe para ele o olhar nos olhos. O Chris até fez um olhar doce como uma mousse de café, mas o outro é que, lá na ponta da mesa, ferido no seu orgulho, não quis provar da mousse e respondeu: “ Não olho que eu tenho falta de vista”.  

6. ARROZ DOCE

" Há homens cuja dimensão humana e profissional ultrapassa os limites da vulgaridade. São seres que reúnem em si capacidades que não estão ao alcance do comum dos mortais. O nosso mister Vítor Marques é assim. Para além de ser um génio no que toca à vertente físico-técnico-táctica-psicológica do futebol, o homem tem um conhecimento absoluto do cardápio gastronómico que faz com que as terceiras partes dos jogos fiquem ou não marcadas na nossa memória. Imagine-se que após uma tensão arterial altíssima, uma voz rouca, fortes dores de cabeça e um nervosismo que o fizeram sair constantemente da área técnica, tudo provocado pela sua forma apaixonada de estar na alta competição, o homem ainda teve sensibilidade de paladar para concluir que o arroz doce não sabia a nada, contrariando a opinião de dois amigos brasileiros que já tinham comido três taças cada um e ainda se lambiam.
Analisados todos os perfis de todos os grandes treinadores do mundo, chegámos à conclusão que o Vítor Marques é o único treinador que percebe de arroz doce. E, que nos desculpe o Mourinho, um treinador que não saiba fazer arroz doce nunca pode ser especial.
É que para além de perceber de canelas, também tem que perceber de canela."

7. NÃO LHE OLHEM Á PLACA!

"Para um árbitro, acabar um jogo com dentes todos não acontece todos os dias. Pese embora o seu estilo demasiado autoritário – veja-se a embirração que ele tem com o Lobo, o Rochinha e o Zé Ponte – o Pilau conseguiu mais uma vez apitar para o final de um jogo sem que nada lhe acontecesse aos dentes incisivos superiores.
Curiosamente, durante o jantar, de tanto dar ao dente desbastando 600 gramas de camarão, a placa partiu-se. Previu-se logo ali perante tamanha tragédia que o homem do apito seria, a partir dali, apenas alimentado a soro fisiológico ou médias Sagres. Depressa nos desenganámos. Sem a parte de cima para o embate com o frango de cabidela, o Pilau despachou quatro pernas, cinco asas, três peitos e dois pescoços, tudo acompanhado por um quilo de batatas e oito fatias de casqueiro."

8. O HOMEM DOS FALHANÇOS BONITOS

O Labacha é autor dos falhanços mais bonitos da história dos veteranos do ODC.
(...)

O jogador nº 21 do Estombarense, possivelmente fruto de adrenalina a mais na corrente sanguínea, deu cento e setenta e cinco gritos de dor, doze dos quais como se o tivessem esventrado, caiu oitenta e três vezes, dirigiu-se ao árbitro de peito feito em quarenta e quatro situações e chamou nomes malcriados aos adversários trezentas e vinte e duas vezes, tendo cento e oitenta deles sido dirigidos ao Baltacha.
E, de acordo com opinião de um colega de equipa, até foi dos dias em que ele estava mais calmo.

9. QUEM SABE NUNCA ESQUECE 

O Baltacha olhava para um lado e para outro e não encontrava opção de passe. Não querendo que o jogo esmorecesse, a única solução era meter a bola em profundidade para o Vítor Marques. Pela extrema direita, endiabrado, solto, letal, o Vítor, naquele vai e vem massacrante para o adversário, perdeu mais de sete mil calorias. Estafado e em fraqueza, foi obrigado a ir ao buffet seis vezes para repor energias. O último prato continha ainda quatro salsichas grelhadas, duas asas de frango, meio quartilho de azeitonas, um bife, legumes variados, tudo bem empapado em molho de cogumelos e para empurrar quatro pãezinhos algarvios.